Entender os próprios ciclos é parte importante do processo de retomada da vida selvagem, da nossa própria essência.

Durante milênios nos fizeram acreditar que o nosso tempo é linear: nascemos, crescemos, vivemos e morremos. Compramos essa roubada e agora tentamos recuperar, a duras penas, o verdadeiro significado do nosso tempo, muito mais rico e complexo. Nosso tempo é cíclico. Somos, literalmente, mulheres de fases.

Quantas aqui sabem em que fase da lua nós estamos? E como ela se relaciona com o seu próprio ciclo menstrual? Quantas aqui se sentem conectadas com os grandes ciclos da natureza: primavera, verão, outono e inverno, e como eles dizem muito a respeito de seus próprios processos pessoais?

Rotularam nossos processos fisiológicos naturais como algo patológico, algo que precisa ser remediado. A menstruação foi conceituada pela medicina patriarcal como o óvulo não fecundado, a sangria inútil, e gerações de mulheres viam como algo sujo, que precisava ser escondido, o pecado original de Eva. Nosso movimento natural de introspecção durante o ciclo foi tachado de TPM. Hoje dizemos que significa “Tempo Pra Mim”. Se ficamos tensas, é porque esse tempo não é respeitado. As mulheres que não sangram mais entraram na fila daquelas que encerraram seu ciclo, a menopausa. Uma mulher jamais deixa de ser cíclica. Aquela que deixou de sangrar, passa a carregar todos os ciclos da lua dentro de si. Ela não precisa mais de um ciclo externo para lembrar-lhe da sua ciclicidade. E, por isso, agora ela é a Sábia e conquistou o direito a sua sábiapausa.

Dentro de cada uma de nós existem arquétipos intimamente relacionados à natureza feminina e aos nosso ciclos: a menina, a donzela/jovem, a mulher e a sábia/anciã. Esses arquétipos atuam de forma dinâmica em nossa psique. Eles estão presentes, não somente em nosso tempo de existência material, como também em nossos ciclos mensais, nas estações do ano, em nossos processos diários de acordar, trabalhar/estudar, descansar e dormir, e, até mesmo, em nossos pequenos e grandes processos de decisão. Em um momento somos a menina e num piscar de olhos, somos a mulher. Em outro, somos a jovem e, logo depois, já somos a anciã. E elas dançam, brincam, vão e voltam ao nosso bel prazer. Às vezes, tudo junto ao mesmo tempo agora, como na experiência do gato de Schrödinger.

E se pararmos para pensar na essência dos ciclos, tudo se resume à expansão e contração, como o inspirar e o expirar da respiração, a sístole e a diástole do coração, acordar e dormir, a seiva das árvores que sobe até a copa e desce até às raízes, o processo de hibernação dos animais, a erupção e o adormecer de um vulcão, o apogeu e a dispersão de um furacão, os ciclos de vida-morte-vida da natureza durante as estações do ano, as fases da lua nova, crescente, cheia e minguante. O nascer da menina, a vitalidade da jovem, a plenitude da mulher e a interiorização da sábia. A estrela que nasce de uma explosão e, no fim, se contrai em um buraco negro, para depois se expandir novamente. A origem de tudo o que existe. Todo o Universo pulsa nesse movimento de expansão e contração.

Olhar para o nosso tempo com essa visão sagrada, quase mágica, é um privilégio que a natureza feminina nos legou. Honremos nossos ciclos e cada face da mulher que existe em nós.

Gisele Endrigo, no quadragésimo quinto ano de sua existência, Sétimo Setênio de sua Biografia Humana, na Lua Negra da Sexta Lunação do ano de 2019, no sexto dia de seu ciclo, em sua face invernal, a anciã.

 

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