Hoje eu quero falar com você. É, você que está patinando nas páginas do livro, que lê muitos e muitos textos na internet todos os dias – e que tantas vezes não sabe como aplicar tudo que aprende no turbilhão da sua vida.

Você sofre. Não sabe as perguntas que precisa fazer – nem imagina por onde começar. Só sabe que está tudo uma confusão enorme. Tantos e tantos “nãos” da vida… tantas dúvidas e incertezas. Como não ficar maluca (ou maluco) com tanta dificuldade?

Para onde você olha, percebe caos. Lá fora, no mundo, as pessoas parecem estar cada vez mais intolerantes. E aí dentro, você não consegue concatenar o que fazer com tanta coisa fora do lugar. De repente, tudo saiu das suas prateleiras e sinceramente, você não quer mais que nada se encaixe nos mesmos lugares – você queria mesmo era mudar, sair correndo pelo deserto, apenas acompanhada das suas próprias pernas.

O poema do Drummond “E agora, José?” pode servir pra você. É só trocar “José” por “Maria”, usando a licença do poeta.

Você, na verdade, sou eu. Eu que patinei por 8 meses nas páginas da obra de Clarissa. Eu que demorei anos pra entender que o livro todo não falava de outras pessoas a não ser de mim mesma. Eu com os meus demônios, meus medos e todos os problemas que eu sempre procurei culpados fora – sem nunca tentar olhar pras minhas próprias forças e limitações.

Eu que era ingênua. Tão ingênua… mesmo tendo passado por inúmeras provas e iniciações tão complicadas na vida. Era ingênua por desconhecer meus próprios erros. Por negá-los.

Eu que custei a entender o que fazer com aquelas muitas páginas – onde me perdi e voltei tanto na leitura. Quantas e quantas páginas que precisei: “não… péra… deixa eu voltar que não estou entendendo nada”.

Eu que chorei por tantas vezes, e me senti forte tantas outras – ao me identificar com todas as heroínas e também com as vilãs e vilões das histórias.

Então eu resolvi: agora, ok, o que eu faço com tudo isso? E fui buscar a conexão com outras mulheres. E ao buscar essa conexão, ganhei mais entendimento. Dia após dia. Não sem antes mergulhar fundo na depressão, para depois voltar, ressurgindo das minhas próprias cinzas.

O caos, esse que faz tudo desmoronar. Esse que apresenta nossas falhas de maneira irreversível. O caos me fez olhar nos olhos dos meus demônios. A preguiça, a baixa autoestima, essa vitimização horrível que nos faz parecer meninas mimadas diante de problemas que só precisam ser encarados com a nossa coragem.

Eu sou você, mulher que se sente perdida. Até hoje, em tantos dias difíceis.

Mas eu sou você da mesma forma, quando nos erguemos em sororidade, em humanidade. Quando dividimos, conversamos e seguramos as pontas – umas das outras. E dos outros também.

Afinal, quando eu percebo que ao me curar, eu não caio mais em armadilhas, os homens deixam de ser predadores e podem ser apenas parceiros de jornada.

Eles também com seus erros e acertos. Sua vulnerabilidade negada, por séculos de patriarcado ferido. Homens e mulheres precisam de cura. E todos precisam de amor.

Crédito foto: pasja1000 Pixabay

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