Nós, ocidentais, herdeiros da tradição greco-romana, temos extrema dificuldade em lidar com a morte. A morte é o fim, o feio, o vício, o desespero. Entre os gregos, só havia a bela morte para os guerreiros que morriam lutando.

Mas eis que a Mulher Esqueleto cruza o meu caminho e me ensina sobre a natureza da vida-morte-vida de tudo o que existe, das mortes necessárias e dos (re)nascimentos surpreendentes, um dos aspectos mais básicos e profundos da natureza selvagem.

Na história do povo inuit, um pescador fisga sem querer o esqueleto de uma mulher, que havia sido jogada ao mar pelo pai. Ele foge apavorado, mas ela fica presa e emaranhada na linha de pesca e é arrastada até a casa dele. Apesar do medo, ele acaba sentindo compaixão pela criatura e a desenreda, arruma seus ossos e a aquece com uma coberta. Quando ele dorme, a mulher se aproxima e bebe uma lágrima do pescador. Aquela única lágrima é como um rio que ela bebe até saciar sua sede de tantos anos. Depois ela retira do peito do homem o seu coração e começa a bater como um tambor. Ela canta sobre os seus próprios ossos para o seu corpo se revestir de carne e voltar à vida. Quando termina, devolve o coração/tambor ao peito do pescador e os dois acordam abraçados um ao outro, enredados, mas agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

Na maior parte das vezes, o encontro com o outro é como a descoberta acidental de um tesouro, em que não se percebe exatamente o que foi encontrado. A incapacidade de encarar a Mulher Esqueleto e de desenredá-la é o que provoca o fracasso de muitos relacionamentos de amor. Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher Esqueleto.

Quando encaramos a Mulher Esqueleto, aprendemos que o amor não é alguma coisa que se vai “obter”, mas, sim, algo gerado em ciclos e distribuído, para ser compartilhado nos fluxos e refluxos da vida, em todos os finais e reinícios.

“A morte está sempre no processo de incubar uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.” (Clarissa Pinkola Estés. “Mulheres que correm com os Lobos”)

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